Suplemento Literário Especial homenageia Minas Gerais

Como parte das comemorações dos 300 anos de Minas, o Suplemento Literário de Minas Gerais traz ao público um número especial sobre a literatura em Minas, de Minas e sobre Minas. Para conversar um pouco sobre esta edição comemorativa e colaborativa, teremos uma Live especial no dia 07 de janeiro, às 18h, no canal do YouTube do MM Gerdau - Museu das Minas e do Metal, com a mediação do jornalista João Pombo Barile e nosso convidado especial, o professor Jacyntho Lins Brandão, organizador desta edição comemorativa do Suplemento.

O número especial, que contou com o apoio da Gerdau, se propõe oferecer um vislumbre dos trezentos anos que se contam desde quando o território foi assim chamado, sem esquecer de que nele convergem mais que trezentos, procedentes de quando assim não era ainda nomeado. O número não se pretende um levantamento exaustivo, mas a marcação de aspectos e momentos expressivos, de modo que a parte fale de algum modo pelo todo, na diversidade de vozes, lugares e temporalidades. 

É esse todo que a organização do dossiê pretende refletir graficamente. De início, monografias sobre três poetas em tempos de passagem, da colônia para a província, em seguida, estudos temáticos sobre outros trânsitos, do império para a república, do popular ao erudito, da palavra escrita à cantada e espetacularizada, para desembocar em outros dois trabalhos dedicados à poesia de nós contemporânea. 

Nesse sentido, o dossiê pretende não só se voltar para o passado, como apontar para o futuro, em especial para o resgate de línguas, culturas e literaturas marginalizados desde a imposição iluminista do português e da tradição europeia como nosso único legado. Atente-se apenas como era lugar comum, até a primeira metade do século vinte, afirmar a impossibilidade de fazer a história de índios e africanos em Minas, pela ausência de documentos, os quais, todavia se encontravam à espera do olhar dos pesquisadores em arquivos civis e eclesiásticos espalhados por todo estado, além de nos acervos brasileiros e portugueses. 

Basta recordar que o primeiro registro escrito da língua africana mina-jeje foi feito em Ouro Preto, em 1741, documento resgatado em 2002 por Yeda Pessoa de Castro. Luiz Fernando Veloso Nogueira, por sua vez, a partir de registros eclesiásticos, seguiu a trajetória familiar de Manoel e Eva, escravos que, na segunda metade do século XIX, viveram na freguesia do Divino Espírito Santo do Lamim. 

Das populações indígenas, diversas línguas e muitas culturas resistiram até a reversão, pela Constituição Federal de 1988, da proibição de que meninos e meninas, nas escolas, usassem “das línguas próprias de suas nações”, nos termos do decreto do Marquês de Pombal, de 17 de agosto de 1758. É de todo significativo, portanto, que a cidade de Bertópolis tenha aprovado recentemente a introdução do maxakali como segunda língua em todas as escolas do município. 

Esses exemplos servem para dizer que, como as línguas e as culturas, a literatura mineira são muitas e é nessa diversidade que se encontra sua riqueza. Uma perspectiva que se espera, nos próximos trezentos anos, só venha a ser realçada e cultivada. 

Currículos

Jacyntho Lins Brandão é professor titular de Língua e Literatura Grega da Faculdade de Letras da UFMG, onde também já atuou como vice-reitor e ex-diretor. Doutor em Letras Clássicas pela USP, Brandão é sócio-fundador e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos. Escreveu diversos livros, entre eles, “A poética do hipocentauro: literatura, sociedade e discurso ficcional em Luciano de Samósata” (Ed. UFMG, 2001); “A invenção do romance” (Ed. UnB, 2005); “Luciano de Samósata: como se deve escrever a história” (Ed. Tessitura, 2009); “Antiga Musa: arqueologia da ficção” (Editora Relicário, 2015); e “Em nome da (in)diferença: o mito grego e os apologistas cristãos do segundo século” (Ed. Unicamp, 2014). Um dos mais importantes tradutores brasileiros da atualidade. Membro da Academia Mineira de Letras. Organizou o volume Literatura mineira: trezentos anos, publicado pelo BDMG Cultural em 2020 (o livro pode ser baixado gratuitamente no site bdmgcultural.mg.gov.br). 

João Pombo Barile é jornalista. Redator do Suplemento Literário de Minas Gerais. Dirige, desde 2011, o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura.

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